quarta-feira, 6 de maio de 2009

Filosofia e Administração de Empresas

Dentro do processo administrativo temos: História, Teoria do Conhecimento, Ética.
As teorias administrativas só podem ser entendidas através dos diferentes períodos históricos voltados predominantemente para uma Teoria do Conhecimento e uma Ética. Sem eles se torna praticamente impossível entender os diferentes modelos organizacionais.
Historicamente, as teorias da administração surgem em meados do século XIX com o surgimento do modelo capitalista. A ideologia capitalista tem no lucro a força motriz do sistema.
Anteriormente a esse período, as economias feudal, mercantil e artesanal da Idade Média estavam subordinadas à ideologia religiosa católica e, por conseguinte, a moral cristã medieval.
Que moral era essa?
Todas as atividades deviam ter o propósito de agradar a Deus (ad majoram Dei Gloriam). Todo negócio que visava o lucro era essencialmente imoral. O valor de um bem deveria ser o equivalente ao seu custo de produção. O empréstimo a juros era considerado usura e quem o praticava incorria em pecado grave. Com o surgimento do capitalismo veio a legitimação do lucro pela ética protestante que justificou a acumulação de dinheiro e santificou o lucro como agradáveis a Deus e como sinais presumidos de salvação, justificando as funções do capital como justa recompensa pelos serviços prestados.
Para se ter uma idéia da ética protestante, analisemos as colocações de Max Weber:
“para atingir fins bons, somos obrigados a maior parte do tempo a lançar mão, de um lado, de meios moralmente desonestos ou pelo menos perigosos, e de outro lado, da possibilidade ou ainda da eventualidade de conseqüências desagradáveis. Nenhuma ética no mundo pode nos dizer em qual momento e em que medida um fim moralmente bom justifica os meios e as conseqüências moralmente perigosas”. (Max Weber, Le Savant, p. 173)
Portanto, para se entender a filosofia das empresas é necessário antes de mais nada, ter consciência da importância do trabalho na vida humana e as atividades correlatas desempenhadas pelo executivo na empresa. Ter noções de alguns pressupostos da ética protestante é o primeiro passo para situarmos as teorias da administração.
As teorias presentes no universo da gestão empresarial sejam elas, a Teoria Científica de Taylor, a Teoria Clássica de Henry Fayol, a Teoria das Relações Humanas, a Teoria Comportamentalista, a Teoria da Informação, a Teoria Holística possuem fundamentos filosóficos, respondendo a questões essenciais da existência humana:
- Quem é o ser humano?
- Qual a finalidade do trabalho?
- Qual o modelo ideal de administração?

A Administração Científica

No início do século XX, Frederick Winslow Taylor, adepto da religião protestante, começou a fazer experiências observando o trabalho dos operários na linha de produção. Concluiu que as indústrias padeciam dos seguintes males:
> Vadiagem sistemática por parte dos operários;
> Desconhecimento por parte da gerência das rotinas de trabalho e do tempo necessário para sua realização;
> Falta de uniformidade das técnicas ou métodos de trabalho.
Diante disso, propôs substituir os métodos empíricos e rudimentares pelos métodos racionais.
Para Taylor, o operário não possuía capacidade, não possuía formação e nem meios para analisar cientificamente o seu trabalho e estabelecer racionalmente qual o método ou processo mais eficiente.
Geralmente, o supervisor comum deixava ao arbítrio de cada operário a escolha do método ou processo para executar o seu trabalho, para encorajar sua iniciativa. Desse modo, a produção estava comprometida. Propôs a Administração Científica com a repartição de responsabilidades:
1) À gerência cabe planejar e estabelecer o método de trabalho;
2) Ao supervisor acompanhar o trabalho do operário;
3) Ao operário somente a execução do trabalho.
Os princípios da Administração Científica são:
a) Princípio do preparo: selecionar os trabalhadores de acordo com suas aptidões e prepará-los para produzir mais e melhor de acordo com o método adotado. Além do preparo da mão-de-obra, preparar também as máquinas, equipamentos e disposição racional das ferramentas.
b) Princípio do controle: controlar o trabalho para se certificar de que a produção está sendo executada de acordo com as normas estabelecidas e segundo o plano previsto.
c) Princípio da Execução: distribuir distintamente as atribuições e as responsabilidades para que a execução seja disciplinada.
Por que a teoria Taylorista se firmou nesse período?
Primeiramente, pelo baixo grau de instrução do trabalhador da época que possuía baixíssima qualificação e especialização, portanto, não poderia ser deixado à vontade. E as teorias antigas fundamentalmente empiristas não propiciavam eficácia no setor de produção.
Em segundo lugar, pela própria ideologia religiosa dos donos das fábricas que baseados na doutrina protestante, entendia que o trabalho era o resgate da alma humana em sua peregrinação sobre a terra, pois a natureza humana em si mesma é negligente.
Desse modo, o trabalho de Taylor inicialmente procurou eliminar o desperdício e perdas sofridas pelas indústrias americanas, elevando assim, o nível de produtividade através de métodos e técnicas de engenharia. Estudava os tempos e movimentos, a fragmentação das tarefas, reestruturando a produção com gratificações por produção.
Se observarmos com os conceitos presentes no processo administrativo em nossos dias podemos notar suas limitações:
1) O mecanismo de sua abordagem (a teoria da máquina);
2) Superespecialização que robotiza o operário;
3) Visão microscópica do homem tomado isoladamente e como parte da Maquinaria;
4) Abordagem eminentemente prescritiva e normativa.
Respondendo às questões iniciais:
> Quem é o ser humano para Taylor?
É negligente e cabe ao chefe atenuar essa negligência através da vigilância.
> Qual a finalidade do trabalho?
Fazê-lo produtivo o mais eficientemente possível.
> Qual o modelo ideal de administração?
O fiscalizador e produtivo.
Não nos esqueçamos que o modelo Taylorista é o modelo da linha de montagem, da produção em ‘serie’ e da divisão do trabalho.
Curiosidade: O filme “Tempos Modernos" de Charles Chaplin é uma crítica atroz ao modelo Taylorista.

A Administração Clássica

Coube a Henry Fayol ampliar a Administração Científica de Taylor, coordenando as funções administrativas no sentido de sincronizá-las com as demais funções da empresa, criando a Teoria Clássica da Administração.
Concebe a organização em termos de estrutura, forma e disposição das partes que a constituem, enfatizando o inter-relacionamento entre suas partes.
O Modelo de Fayol é o modelo cartesiano por excelência. Responsabilidades claras e distintas do departamento da empresa.

Teoria das Relações Humanas

Com a crise de 29 e o fortalecimento dos sindicatos na Europa e Estados Unidos, surge a Teoria das Relações Humanas que atenuava os conflitos, procurando fazer dos objetivos da empresa, os objetivos do empregado. A motivação se torna a palavra chave:
> Quem é o ser humano para a Teoria das Relações Humanas?
É produtivo, desde que adequadamente motivado.
> Qual a finalidade do trabalho?
Fazê-lo desenvolver as suas potencialidades.
> Qual o modelo ideal de administração?
O motivador, aquele que propicia situações humanas favoráveis ao desempenho.
Não nos esqueçamos que o modelo voltado para as relações humanas está assentado em práticas psicológicas de harmonização e integração do indivíduo com o ambiente.
Obras como: Deixe as preocupações e comece a viver, Como fazer amigos e influenciar pessoas de Dale Carnegie são clássicos do pensamento das Relações Humanas.

Teoria do Comportamento

Por volta dos anos 50, com o término da segunda guerra mundial, uma nova postura psicológica se torna dominante: o behaviorismo. Através de estímulos voltados para os mecanismos punição/recompensa acredita-se obter a máxima produtividade.
> Quem é o ser humano para a Teoria do Comportamento?
É produtivo, desde que adequadamente “amestrado”.
> Qual a finalidade do trabalho?
Fazê-lo se comportar adequadamente.
> Qual o modelo ideal de administração?
Baseado em estímulos e respostas.
A teoria do Comportamento tem seus pressupostos em experiências feitas com o comportamento dos animais.
Obras como a do psicólogo B. F. Skinner.

Teoria da Informação

No final dos anos 50 e início dos anos 60, com o estupendo desenvolvimento das telecomunicações, propiciando revolucionárias técnicas de propaganda e marketing, o manejo informa de integração para os objetivos da empresa.
> Quem é o ser humano para a Teoria da Informação?
É um ser social que através da informação manipula seu mundo.
> Qual a finalidade do trabalho?
Integrá-lo ao universo da tecnologia.
> Qual o modelo ideal de administração?
Assentado no modelo informativo comunicacional.
Obra: Cibernética, Norbert Wiener.

Teoria Holística

A partir dos anos 80, com as novas descobertas tecnológicas e a conseqüente preocupação com o meio-ambiente, surgem às novas teorias que procuram adequar o singular com o coletivo, o homem com a natureza, os problemas ecológicos, integrando corpo/alma/ espírito.
> Quem é o ser humano para a Teoria Holística?
É parte da natureza física, humana e divina.
> Qual a finalidade do trabalho?
Fazê-lo desenvolver as potencialidades integrando o humano e divino em si, contribuindo com seu ambiente.
> Qual o modelo ideal de administração?
O integrador, aquele que propicia a perfeita ou a mais perfeita harmonia.
Obra: Holística – Pierre Weil.

Globalização

Vivemos na era da globalização, das novas tecnologias, no mundo digitalizado. Tudo isso levou à necessidade do conhecimento contínuo, do aprendizado permanente, da especialização.
As exigências para o trabalho são bastante diferentes da época taylorista, na qual os operários possuíam baixíssima qualificação e não havia mesmo praticamente necessidade desta.
O aparecimento da psicologia no processo de gestão organizacional nos anos 30, pouco tem a ver com a visão de mundo hoje, bem mais individualista e competitiva.
Como deve ser filosoficamente esse novo homem?
- Empreendedor?
- Adaptável?
- Determinado?
Temos também os chamados modismos: o processo de gestão empresarial recebe os impactos da cultura em que está inserido. A mitologia está presente na Administração através de consultas astrológicas, numerológicas e outras práticas mágicas adotadas por algumas empresas.
Na década de 80, a Filosofia Oriental esteve continuamente presente no mundo dos negócios com a aplicação da Teoria Z de origem japonesa.

Considerações Finais

Desse modo, o conteúdo filosófico está presente na existência humana e, logicamente também, nos diferentes modelos administrativos. Derivada da concepção que se tem da natureza humana, estabelece-se a finalidade do processo administrativo, propondo-se, então procedimentos éticos e morais.
As Teorias da Administração originárias, em sua grande maioria da Inglaterra e dos Estados Unidos, estão baseadas na ética protestante, legitimadora do sucesso de uma minoria de ricos. Podemos comprovar essa afirmação observando as igrejas evangélicas, inspiradas na Teologia da Prosperidade norte-americana, apregoarem a busca da riqueza como essencialmente cristã através de correntes de fé, como: “Corrente dos Empresários”. Dentre elas, podemos destacar a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Igreja Renascer, Igreja Paz e Vida e tantas outras. Alguns movimentos esotéricos inspirados nos princípios da “New Age” acentuam também a importância do sucesso material.
Por outro lado, a ética católica, procura preservar o auxílio aos pobres e excluídos, protestar contra as desigualdades econômicas e sociais do capitalismo, propondo o assistencialismo e a defesa dos direitos humanos, incluindo o dever do Estado em propiciar uma melhor distribuição de renda para a população. Podemos destacar aqui atuações das Comunidades Eclesiais de Base, as posições assumidas pelo padre Júlio Lancelote e outros.
De modo geral, as seitas protestantes e os gurus da auto-ajuda apregoam que o trabalho enriquece as pessoas e que ser rico é muito bom, a Igreja Católica elogia aqueles que se colocam na defesa dos mais fracos.
E, finalmente, aqueles que assumem uma ética não-ética como muitos empresários conhecidos que parecem buscar inspiração na proposta de Glaucon, irmão de Platão: “Se uma pessoa puder mentir, trapacear e roubar , e nunca ser pega, por que deveria ser honesta?” (Michael Hyman et alii. Ethical codes are not enough.)
Temos aqui, a moral do oportunismo, alicerçado num egoísmo ético, em que o agente faz o que lhe traz o máximo bem, independente das conseqüências geradas sobre os outros.
Em 1996, uma pesquisa apresentada pela Research International, sobre os interesses, e comportamentos e valores de pessoas na faixa etária de 20 e 35 anos, em 34 países, inclusive o Brasil, revela que o consumo e o conforto são mais importantes do que manifestações de ruas, sejam elas políticas, ecológicas ou econômicas. São denominados de “Geração X”, cujos valores são: o competir e o consumir; e cuja ideologia é aproveitar as oportunidades da vida para obter sucesso econômico, uma vez que não se pode viver “sem sonhos”. Enfim, para a moral do oportunismo, as normas morais são feitas para pessoas inocentes; para a moral da integridade, as normas morais propiciam e estabelecem o bem comum.

Autor: Roberto Bazanini, Janeiro/2001.

2 comentários:

  1. Olá pois bem, sou ex acadêmica de filosofia e atualmente faço administração, lii seu texto e achei interessante, há um tempo venho procurando textos desse tipo que envolva as duas disciplinas.
    parabéns!

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  2. Boa tarde Katimila,
    Obrigado!
    Fui professor de filosofia na graduação de ADM por algum tempo e postava periodicamente aqui, entretanto, depois que passei no concurso para o curso de Filosofia acabei deixando um pouco de lado este blog. Achei que tivesse mais acesso a ele. Bom saber que ele ainda pode ajudar alguém, nem que seja para sugerir bibliografias ou apontar algunes comentários sobre algum texto.
    Qualquer coisa pode me escrever aqui no blog mesmo e te respondo.
    Grande abraço.

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